Esse é um assunto que eu queria abordar faz tempo… como as paisagens aqui mudam praticamente a cada dia, a cada nova etapa vemos um cenário diferente. É muito interessante. Tentem reparar nas fotos, como mudam as cores, a presenca das plantas, o tipo de plantas, mais ou menos construcoes, o tipo das construcoes e por aí vai… the ever changing landscape, era a frase que vinha ficando na minha cabeca todos os dias.
Em outra hora falo mais sobre minhas sensacoes a respeito. Por enquanto, curtam os videos e fotos e tirem suas proprias conclusoes. E continuem comentando
Assim é a nossa vida, e o Caminho é uma representacao bem adequada desta frase. Pensei muito sobre isto hoje. Estou agora em Reliegos, a 25km de León (provavelmente o mesmo lugar onde Cristo, nosso amigo das Canárias, ficou), depois de caminhar por 31 longos km hoje.
Pensava nisso enquanto caminhava com alguma dificuldade, já depois de alguns trechos cumpridos, pois me saíram duas bolhas no calcanhar esquerdo, que passaram a incomodar bastante. E na hora lembrei do texto enviado pelo amigo da Chris (vejam comentário aqui), que aliás eu gostei muito, principalmente pela parte que diz que “Os marcos do que passou são apenas lições para o que vem”. Isso porque poucos dias atrás andei uma etapa a média de mais de 5,5km/h, ou seja, bem forte, e foi tudo ótimo, me sentia 100%. Respondendo ao meu avô, como você vê, passo de estrada, nada de passo ordinário
E os dias passaram, e as bolhas se curaram, e as dores melhoraram. Porém novas dores surgiram, e eu pensei: enquanto só as costas doerem está ótimo, pelo menos os pés estao inteiros. E entao vieram as bolhas no calcanhar. Ou seja, nao adianta repousar sobre os louros das vitórias passadas, dos kms já percorridos, porque eles sao apenas a base para o novo trecho que se inicia, até que seja cumprida a meta. Nao adianta estar bem hoje, você nao sabe como estará amanha, portanto nao pode dar nada por garantido antes de efetivamente conquistá-lo. Nem mesmo a chegada às cidades, pois algumas, nas planícies, você vê ao longe e imagina que já está quase lá; ledo engano. Ainda faltam longos km a percorrer, ainda falta esperar pelo tempo adequado para a conquista.
O que nos leva de volta ao título do post. Estava eu hoje comparando a caminhada a uma viagem de ônibus, só que a pé. Sim, é uma grande diferenca, já que você nao está sentado dormindo e cocando enquanto espera o tempo passar. Você espera o tempo passar enquanto caminha. Porque estamos muito acostumados a usar nossos carros e acelerar quando é preciso, mas nossa “máquina” com pés tem um limite bem definido, uma margem bem baixa para otimizar a velocidade com uma mochila de em média 10kg nas costas, sob o vento frio e seguida o sol escaldante, rastejando sobre as trilhas poeirentas deste interior espanhol. Entao temos uma distância definida a cumprir, dentro de uma velocidade pré-estabelecida. Que nem viagem de ônibus. Pode ver que ônibus raramente chega antes do tempo, geralmente chega dentro da hora prevista, ou atrasado. Fica sempre dentro de uma velocidade padrao.
Assim é com os peregrinos. Atualmente já contamos as distâncias bem mais em hors a caminhar que em km faltantes, pois faz mais sentido. Nao adianta contar kms se nao podemos diminui-los ou encurtar o tempo que vamos levar para percorrê-los. Assim, nos resta pensar que faltam mais X horas para chegar ao próximo vilarejo, e programar as paradas pelo meio do caminho, quando necessário, para um descanso dos pés, e da cabeca também. Sim, pois aqui os tramos (trechos) sao extremamente enfadonhos - grandes rets com pouca sombra e nenhum graca, ao lado da estrada. Mal vejo a hora de chegar na Galicia.
Enfim, de curiosidades para hoje, vi um casal muito diferente na estrada, voltando de Bercianos, na direcao oposta a nossa: o rapaz com um manto, e a moca tambem vestida de maneira diferente, e ambos com um burro levando a carga das mochilas, e mais um cachorro Bem pitoresco…
E lembrando uma frase importante, creio que o nome da autora era Mme. Debril, que acolhia peregrinos em St. Jean há muitos anos, e relacionada com o tema do post: “O PEREGRINO ANDA O QUANTO PODE, E NAO O QUANTO QUER”. Essa é uma verdade absoluta…
Aqui você depende apenas de si mesmo, de seus pés. Nao tem acelerador pra ajudar. Nao tem ninguém que possa andar por você (apesar da boa idéia do Márcio de contratar uns neguinhos pra fazer o caminho por ele rs). Entao você caminha conforme seu corpo permite (e passa a saber quantas horas ele aguenta caminhar em cada situacao). Por isso, tenho certeza que o sonho secreto (ou nem tao secreto assim) de muitos peregrinos é sentar no banco de um carro ou onibus durante esses duros dias por aqui. Sim, todos falamos que nao vamos coger el autobús, jamás! Mas todos pensam em como seria bom pegar uma carona até o próximo pueblo, sentadinho vendo os kms se passarem sob os pés… Mas, como dizia um cartaz que vimos um tempo atrás aqui, NO PAIN, NO GLORY Entao, sentimo-nos felizes pels realizacoes que já tivemos, mas seguimos penitentemente, como bons peregrinos, pelo buen camino. Depois de todo esse tempo, dá pra perceber o que é o real espírito de fé da peregrinacao. Por mais que muitos facam o caminho pelo esporte ou aventura, acaba sendo um exercício de paciência, fé, humildade e persistência.
Tenho outros pensamentos mas agora já foi muito tempo por aqui depois tem mais… keep tuned!