O título do post nao se refere só ao tempo e distancia restantes, 1 semana no máximo, mas também aos marcos de pedra que passamos a encontrar no Caminho dentro da Galicia. A cada 500m há um marco sinalizando quantos Km faltam a Santiago, já que aqui entramos na casa dos 150 restantes, e agora aqui em Triacastela acho que faltam uns 128km.

Na verdade pensava nisso durante o Caminho e como, na verdade, desde que comecei o Caminho estou em contagem regressiva, mesmo antes de vir. Estamos sempre com os minutos correndo e trazendo mais perto a nossa próxima etapa, no Caminho e na vida. Todos nós estamos em contagem regressiva para a morte, isso é certo. Só que nao nos damos conta disso, e por isso talvez nem sempre aproveitemos bem o dia de hoje como deveríamos. Aqui no Caminho, a contagem regressiva comecou no primeiro dia, cada dia passado é um dia a menos para chegar, mas ela fica mais evidente agora, no trecho final desta jornada, pois o objetivo se tangibiliza mais claro na mente, é sentido mais próximo.

Creio que o mesmo se passa com quem tem experiências sérias de doencas ou acidentes, e “vê” a morte de perto. De repente, a reta final aparece ali, muito próxima. E essas pessoas costumam passar a viver mais intensamente, mais conscientes que o relógio continua descrescendo nossos minutos por aqui, inexoravelmente. Talvez se tivermos mais consciência disso, sem precisar do trauma, todos passemos a viver melhor cada dia, aproveitando realmente, fazendo algo útil, algo que ajude a construir nossos sonhos, e assim nao “viveremos esperando dias melhores”, como disse a música.

E ontem, em La Faba, um lugar encantador no Caminho, no meio da subida a O Cebreiro, fiquei num albergue cuidado pela Associacao Alema de Amigos do Caminho, onde havia junto uma capela, e as 20h participamos de uma missa franciscana. Veio um monge, um “irmao”, no traje típico marrom de S. Francisco, muito simpático, e celebrou uma comunhao entre os peregrinos com muito significado e compartilhamento. Isso porque nossas duas amigas, Anne Claire e Jacinthe, o ajudaram a traduzir a missa toda do Espanhol para o Frances e para o Ingles, e também participamos como voluntários, nós 4 e mais 2 outros peregrinos, no ritual de lava-pés, além de várias pessoas contarem histórias que tiveram um significado para elas no Caminho, incluindo eu (com a minha teoria das “bolhas da vida”). Para o pessoal da web, posso dizer que foi uma missa realmente 2.0, colaborativa :)

O fato é que em um dado momento, ele pediu a todos para se levantarem e orarem o Pai Nosso, cada um em sua própria língua, ao redor do altar, e depois nos abracarmos a todos, pedindo por paz. A mensagem dele foi que nao basta só desejarmos a paz; na vida, assim como no Caminho, nao obtemos as coisas sentados esperando. Temos que levantar (a bunda da cadeira) e ir fazer o que é necessário. Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.

Entao, o tempo nao espera por nós, temos que fazer o que queremos fazer hoje, agora. Comecar, para a mente se aquecer, e se empenhar, para que o trabalho seja completado. No excuses, mais atitudes. Como dizia um postal que vi por aqui, “nao sonhe sua vida; viva seu sonho.” Palavras simples mas cheias de significado, para pensar bastante se estamos indo nesse caminho e, principalmente, botar em prática. Como eu botei em prática minha vinda ao Caminho, e espero fazer com várias outras coisas, espero que a realizacao se torne uma segunda natureza na minha vida, hoje e sempre.

Para finalizar o post, devo dizer que a Galícia é especial de fato, e um lugar que eu DEFINITIVAMENTE quero voltar algum dia. Hoje entendo muito bem porque (pelo que ouvi dizer) o Paulo Coelho quer ser enterrado em O Cebreiro. O vilarejo em si é muito simpático, uma antiga vila celta, como já adiantou a Chris, assim como várias aqui da regiao. Mas o melhor é toda a regiao, a natureza, a paz que transmite, as paisagens, o canto dos passarinhos e dos grilos pelo caminho, o céu maravilhoso, as vacas gallegas pastando pelos campos com seus sinos no pescoco (me fez lembrar do Paul nenem!). E o curioso é que, por conta da tradicao celta, aqui inclusive a música (que ouvi) e, segundo soube hoje, as roupas típicas também, sao muito parecidas com as da irlanda e escócia, rolou uma certa dissonância cognitiva rs. Mas é show. E ouvir o povo falando gallego é muito curioso, pois é uma mistura de português com espanhol bem engracada.

Enfim, estou bem, atualmente sem bolhas, só com os músculos cansados, e amanha devo ir acho que a Gonzar, após Sarria. Vamos ver. O Caminho dirá ;)

Em outros posts, outras consideracoes, para nao misturar muitas coisas, e nao estender demais! rs

[]s peregrinos
Gui