Sex 14 Set 2007
O título do post nao se refere só ao tempo e distancia restantes, 1 semana no máximo, mas também aos marcos de pedra que passamos a encontrar no Caminho dentro da Galicia. A cada 500m há um marco sinalizando quantos Km faltam a Santiago, já que aqui entramos na casa dos 150 restantes, e agora aqui em Triacastela acho que faltam uns 128km.
Na verdade pensava nisso durante o Caminho e como, na verdade, desde que comecei o Caminho estou em contagem regressiva, mesmo antes de vir. Estamos sempre com os minutos correndo e trazendo mais perto a nossa próxima etapa, no Caminho e na vida. Todos nós estamos em contagem regressiva para a morte, isso é certo. Só que nao nos damos conta disso, e por isso talvez nem sempre aproveitemos bem o dia de hoje como deveríamos. Aqui no Caminho, a contagem regressiva comecou no primeiro dia, cada dia passado é um dia a menos para chegar, mas ela fica mais evidente agora, no trecho final desta jornada, pois o objetivo se tangibiliza mais claro na mente, é sentido mais próximo.
Creio que o mesmo se passa com quem tem experiências sérias de doencas ou acidentes, e “vê” a morte de perto. De repente, a reta final aparece ali, muito próxima. E essas pessoas costumam passar a viver mais intensamente, mais conscientes que o relógio continua descrescendo nossos minutos por aqui, inexoravelmente. Talvez se tivermos mais consciência disso, sem precisar do trauma, todos passemos a viver melhor cada dia, aproveitando realmente, fazendo algo útil, algo que ajude a construir nossos sonhos, e assim nao “viveremos esperando dias melhores”, como disse a música.
E ontem, em La Faba, um lugar encantador no Caminho, no meio da subida a O Cebreiro, fiquei num albergue cuidado pela Associacao Alema de Amigos do Caminho, onde havia junto uma capela, e as 20h participamos de uma missa franciscana. Veio um monge, um “irmao”, no traje típico marrom de S. Francisco, muito simpático, e celebrou uma comunhao entre os peregrinos com muito significado e compartilhamento. Isso porque nossas duas amigas, Anne Claire e Jacinthe, o ajudaram a traduzir a missa toda do Espanhol para o Frances e para o Ingles, e também participamos como voluntários, nós 4 e mais 2 outros peregrinos, no ritual de lava-pés, além de várias pessoas contarem histórias que tiveram um significado para elas no Caminho, incluindo eu (com a minha teoria das “bolhas da vida”). Para o pessoal da web, posso dizer que foi uma missa realmente 2.0, colaborativa
O fato é que em um dado momento, ele pediu a todos para se levantarem e orarem o Pai Nosso, cada um em sua própria língua, ao redor do altar, e depois nos abracarmos a todos, pedindo por paz. A mensagem dele foi que nao basta só desejarmos a paz; na vida, assim como no Caminho, nao obtemos as coisas sentados esperando. Temos que levantar (a bunda da cadeira) e ir fazer o que é necessário. Caminante, no hay camino, se hace camino al andar.
Entao, o tempo nao espera por nós, temos que fazer o que queremos fazer hoje, agora. Comecar, para a mente se aquecer, e se empenhar, para que o trabalho seja completado. No excuses, mais atitudes. Como dizia um postal que vi por aqui, “nao sonhe sua vida; viva seu sonho.” Palavras simples mas cheias de significado, para pensar bastante se estamos indo nesse caminho e, principalmente, botar em prática. Como eu botei em prática minha vinda ao Caminho, e espero fazer com várias outras coisas, espero que a realizacao se torne uma segunda natureza na minha vida, hoje e sempre.
Para finalizar o post, devo dizer que a Galícia é especial de fato, e um lugar que eu DEFINITIVAMENTE quero voltar algum dia. Hoje entendo muito bem porque (pelo que ouvi dizer) o Paulo Coelho quer ser enterrado em O Cebreiro. O vilarejo em si é muito simpático, uma antiga vila celta, como já adiantou a Chris, assim como várias aqui da regiao. Mas o melhor é toda a regiao, a natureza, a paz que transmite, as paisagens, o canto dos passarinhos e dos grilos pelo caminho, o céu maravilhoso, as vacas gallegas pastando pelos campos com seus sinos no pescoco (me fez lembrar do Paul nenem!). E o curioso é que, por conta da tradicao celta, aqui inclusive a música (que ouvi) e, segundo soube hoje, as roupas típicas também, sao muito parecidas com as da irlanda e escócia, rolou uma certa dissonância cognitiva rs. Mas é show. E ouvir o povo falando gallego é muito curioso, pois é uma mistura de português com espanhol bem engracada.
Enfim, estou bem, atualmente sem bolhas, só com os músculos cansados, e amanha devo ir acho que a Gonzar, após Sarria. Vamos ver. O Caminho dirá
Em outros posts, outras consideracoes, para nao misturar muitas coisas, e nao estender demais! rs
[]s peregrinos
Gui
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Setembro 14th, 2007 at 15:04
Lindo meu amor. Não sei muito bem te descrever o que eu senti, mas as tuas palavras hoje me emocionaram de uma forma especial, mais do que os seus outros posts (que merecem de um modo geral um comentário que eu ainda não tinha feito: você definitivamente foi talhado para escrever - faça-o mais, use o seu dom).
Sempre sua, e em contagem regressiva para te ver,
chris
Setembro 14th, 2007 at 21:51
Caro Guilherme,
menos meloso que a comentarista ai de cima, tenho de concordar com ela (e tu não sabes o quanto me custa isto).
Tu deves escrever mais. Não só no caminho ou sobre ele. Vá fundo em tudo que tu tens a dizer pro mundo.
Só assim o mundo vai poder escolher te ouvir.
Amigo
olha que está criando clones no blog).
Setembro 14th, 2007 at 22:42
Gui,
endosso e faço coro sobre o seu dom para escrever. Já pensou em ser escritor?
Quem sabe você saiu da Amil para mudar o mundo?
Beijos.
Mamis
Outubro 4th, 2007 at 14:31
[…] Bem, pra começar, na minha história com o Caminho, cruzei algumas vezes com lugares e histórias franciscanas, que foram especiais. Como em La Faba, quando tivemos uma missa franciscana na capela do albergue que foi realmente bacana, como já escrevi aqui. Outro bom motivo para a ligação entre as duas coisas é que é dito que São Francisco também realizou a peregrinação pelo Caminho de Santiago, em seu tempo. Mas o motivo principal é que a cruz adotada por S. Francisco em sua ordem, que ele usava como assinatura (selo) e que até é refletida no formato do hábito dos monges franciscanos, a TAU, é também tida como a cruz dos peregrinos. Aqui está a que eu uso atualmente, mais sobre a Tau, deixo pra outro post pra não estender muito este: […]
Outubro 27th, 2007 at 15:28
[…] Prestem bem atenção nessa história e vejam que cara excepcional! Precisamos mesmo de mais disso por aqui, na minha opinião. Mais gente que, como ele, tira a bunda da cadeira e vai fazer o que tem que ser feito, como já mencionei em outros posts, inspirado na história da missa franciscana em La Faba. Junte-se a isso o gesto dele com o taxímetro, e temos um bom exemplo do tipo de cidadão que temos aqui na história. Um cara, pra mim, fora de série, pelo que me mostrou na 1h15 que passamos juntos. […]