
Fui pra lá no início da tarde para não arriscar de me atrasar, pois como era dia do rodízio do carro, ia deixá-lo no Shopping Morumbi e ir de táxi até a Funchal, para a entrevista, e depois voltar ao Shopping para ir para casa pelo Morumbi e Rodoanel, evitando o rodízio. A parte da ida foi tranqüila, a entrevista rolou no horário, foi interessante, e saí até antes do que eu imaginava. Aí começou o suplício.
Saí 10 pras 5h da Michael Page e peguei um táxi logo em frente, no e-Tower, já na mão certa pra ir pro Shopping, pra ficar mais fácil. Pois bem, demorei 50 minutos na Berrini e não consegui chegar NEM na Águas Espraiadas… um INFERNO. Aliás, a Águas Espraiadas que não chama mais assim, virou Jornalista Roberto Marinho, aqui é um festival de homenagens que vira e mexe muda o nome das ruas e avenidas como a gente já conhece. Pra mim, vai continuar sendo Águas Espraiadas, assim como pra muita gente. Esse é um traço cultural nosso que vale a pena discutir em outro post, aliás…
Bom, estava eu estressado no táxi, por conta do trânsito, do tempo que passava e do taxímetro rodando, pensando em como era diferente passar o tempo dentro do carro e andando… lembrei do Caminho, em como passar horas entre um lugar e outro servia como relaxamento e reflexão, tranqüilidade etc, e estava comparando com o stress de ficar ali parado no carro. O contexto, podia-se considerar parecido: estava indo de um lugar a outro, entre os dois pontos havia muito tempo sem nada mais para fazer, e portanto podia aproveitar da mesma maneira, certo? Errado.
Tentei relaxar, distrair a cabeça, voltar meus pensamentos para coisas agradáveis, lembrar de quando meditei no Alto de Mostelares, pensar num bom post para o blog
mas o clima do trânsito era venenoso, intoxicante. E aí veio a boa surpresa, exatamente quando tinha tudo isso em mente, o taxista voltou a bater papo comigo e logo em seguida não só se revelou um bom interlocutor, como um cara muito bacana: falou que ia tentar fazer um caminho diferente para fugir do trânsito, e como eu não tinha culpa de estar tudo parado, nem ele, iria desligar o taxímetro (!!!). Isso mesmo! Quem diria que nos dias de hoje encontramos gente assim?
Achei ótimo, claro, pois a corrida já estava virando uma grana pra um trecho tão curto mas o que mais me surpreendeu positivamente foi o gesto, independente da questão financeira. E aí também passamos o tempo todo batendo um papo agradável, interessante - e olhe que eu nos últimos tempos não tinha mais paciência pra ouvir taxista querendo puxar papo falando do Palmeiras e do Corinthians, de política etc. Sempre preferia dormir no táxi e pronto.
Mas o Laerte - esse era seu nome - contou histórias sobre como defendeu uma senhora de um motoboy folgado que bateu na porta, de suas soluções para o trânsito da cidade, do que ele ouvia alguns de seus clientes dizerem de cidades “no estrangeiro” que tinham metro pra todo lado, tudo de um jeito agradável e bem articulado. E ainda foi engraçado pois ele falava IGUALZINHO a um amigo nosso, o Wagner Yoshihara, quase perguntei se era parente
rs.
E contando sobre a história do motoboy com a velhinha, o Laerte mencionou como aconteceu:
o trânsito parado que nem esse aqui, e o motoboy veio com tudo e nao conseguiu brecar, aí bateu na porta da senhora no Uno, desceu da moto e já saiu gritando com ela, “ta louca tia” etc. Aí eu não aguentei, puxei o freio de mao, desci e fui falando o que estava acontecendo.
Nisso já tinha juntado outros 3 motoboys pra fazer pressao na senhora, toda assustada dentro do carro e já quase cedendo aos gritos deles, e eu falei mesmo: “você que fez cagada aí, a culpa foi sua que eu vi”. Aí os caras quiseram me pressionar também, dizendo que eu que era folgado e tudo mais, e por sorte parou outro taxista que desceu pra ver o que estava acontecendo.
Eu falei que folgados eram eles, que a culpa era do “cachorro louco”, anotei a placa da moto e dei junto com meu telefone pra senhora, e disse que se ela quisesse cobrar os prejuízos dele, eu era testemunha dela na hora. Como eu não tenho patrão mesmo, pra mim podia passar o dia inteiro na delegacia que tudo bem. E pouco depois todo mundo debandou, ela acabou não ligando, mas pelo menos acho que ajudei, não podia ver aquela palhaçada acontecendo e não fazer nada (…)
Prestem bem atenção nessa história e vejam que cara excepcional! Precisamos mesmo de mais disso por aqui, na minha opinião. Mais gente que, como ele, tira a bunda da cadeira e vai fazer o que tem que ser feito, como já mencionei em outros posts, inspirado na história da missa franciscana em La Faba. Junte-se a isso o gesto dele com o taxímetro, e temos um bom exemplo do tipo de cidadão que temos aqui na história. Um cara, pra mim, fora de série, pelo que me mostrou na 1h15 que passamos juntos.
Hoje tentei melhorar um pouco minha parte na cidadania também, catando o lixo que estava no chão de um quiosque do Parque Villa-Lobos, onde fomos passear, pra jogar fora junto com o meu. Não custa nada e “desincentiva” os outros a jogarem mais lixo ali. Lembrei da Teoria das Janelas Quebradas, que o Giuliani usou na sua administração em NY, que diz que um prédio com a janela quebrada tem mais chance de ser vandalizado novamente, pois as pessoas observam que a coisa está descuidada, então se preocupam menos ainda em cuidar daquilo elas mesmas.
Bom, fico por aqui com esse post, acho que os recados estão bem dados, e quem um dia estiver na região do e-tower, na Vila Olímpia, e precisar de táxi, procure pelo Laerte. Espero que você tenha mais sorte com o trânsito, mas já vai estar com sorte de andar com um cara tão gente fina.
[]s
Gui